Memórias de gerações revelam transformação da Escola Almirante Barroso ao longo das décadas
Ex-alunos de diferentes épocas, da mesma família, relembraram disciplina rígida, aulas em alemão, mutirões no pátio e a evolução da instituição durante as comemorações dos 140 anos da escola
Três gerações da família Eggert estudaram na escola. (Foto: Isadora Brehmer / Jornal de Pomerode)
As lembranças de antigas salas de aula, dos castigos aplicados pelos professores, das apresentações escolares e até do tempo em que o ensino acontecia parcialmente em alemão voltaram à tona durante as comemorações dos 140 anos da Escola Almirante Barroso, em Pomerode. Ex-alunos de diferentes gerações compartilharam histórias e experiências que ajudam a reconstruir a trajetória da instituição, considerada uma das mais tradicionais da comunidade.
Entre os entrevistados esteve Nolde Eggert, que estudou na escola ainda na década de 1940. Nascido em 1937, ele recordou que frequentou os quatro anos do primário na antiga estrutura escolar e revelou as dificuldades enfrentadas no início da vida estudantil, especialmente por conta da língua.
Segundo ele, em casa a família falava exclusivamente alemão, realidade comum entre muitas famílias pomerodenses da época. A adaptação ao português aconteceu aos poucos e contou com a ajuda de um professor descendente de alemães, que explicava as aulas no idioma materno das crianças nos primeiros meses.
“Em casa nós só falávamos alemão. Português praticamente não existia para nós. Tivemos muita sorte porque o professor era de família alemã e, nos primeiros três meses, ele explicava bastante coisa em alemão para ajudar a turma. Depois começamos a falar um pouco em português, mas mesmo assim era difícil. Até hoje tem palavras que a gente se atrapalha. Naquele tempo quase ninguém falava português corretamente aqui na região”, relembrou.
Nolde contou ainda que tinha facilidade apenas com matemática e enfrentava dificuldades nas demais disciplinas. Ele também descreveu uma rotina escolar muito mais rígida do que a atual.
Crianças que desobedeciam regras ou cometiam erros podiam ajoelhar sobre milho ou feijão, ou copiar frases repetidas por várias vezes.
“Naquele tempo a escola era muito rigorosa. Quem passava do limite recebia castigo. Às vezes era ajoelhar no milho, no feijão ou ficar escrevendo várias vezes a mesma frase para corrigir o erro. Existia muito respeito pelos professores. As crianças respeitavam o professor, o pastor, a polícia e as autoridades. Hoje as coisas mudaram muito. Tem famílias que ainda educam bem, mas naquela época a educação vinha de casa e também da escola”, afirmou.
A estrutura da escola também era bastante diferente. Conforme as recordações do ex-aluno, a instituição possuía apenas duas salas, sendo que uma delas chegou a servir de moradia para famílias após o período da guerra. Mais tarde, o professor João Ehlert retornou à escola e seu filho, Gerhard, também passou a atuar como educador.

Antiga escola Almirante Barroso. (Foto: Arquivo pessoal)
As turmas eram multisseriadas, reunindo alunos de diferentes anos na mesma sala de aula, prática comum em escolas do interior naquele período.
Além das disciplinas tradicionais, os estudantes tinham aulas de canto e educação física aos sábados. As atividades incluíam exercícios com vara, marchas e apresentações culturais.
Nolde também recordou que o professor João tocava violino e participava da animação das festas escolares ao lado de outros músicos da comunidade.
“Todo sábado tinha canto e ginástica. A gente fazia exercícios, marchava, tinha dança e apresentações. O professor João tocava violino e, nas festas da escola, eles mesmos faziam a música do baile. Eram festas muito bonitas, primeiro feitas em salões da comunidade e depois na própria escola. Os alunos apresentavam poesias, danças, ginástica e sempre tinha muita participação das famílias”, contou.
As celebrações cívicas também marcavam a rotina escolar. Os alunos cantavam hinos, participavam de formações em fila e utilizavam uniforme obrigatório, composto por calça azul e camisa branca com as iniciais “EM” bordadas no bolso.
Nolde lembrou ainda de uma situação marcante vivida durante a infância, quando foi repreendido pelo próprio pai após não retirar o chapéu para cumprimentar o professor enquanto passava de carroça em frente à casa do educador.
“Nós estávamos voltando da serraria e eu conduzia os cavalos. Quando passamos pela casa do professor, eu cumprimentei, mas não tirei o chapéu porque estava segurando as rédeas. Depois meu pai me chamou a atenção porque, naquele tempo, era obrigação levantar o chapéu para cumprimentar. Todo mundo se conhecia e se respeitava. Se alguém deixasse de cumprimentar um professor ou um vizinho, isso já podia virar castigo. A escola também ensinava educação nesse sentido”, destacou.
Ele também lembrou que o dia escolar começava com oração e que inspetores visitavam as escolas regularmente para acompanhar o aprendizado dos alunos. As provas finais eram aplicadas por professores vindos de outras instituições.
Apesar das dificuldades com os estudos durante a infância, Nolde revelou que voltou a estudar já adulto.
Outra geração representada nas lembranças foi a de Eduardo Eggert, filho de Nolde, que estudou na Escola Almirante Barroso entre 1981 e 1984, retornando anos depois para concluir o ensino até a oitava série. Ele contou que, embora a escola já estivesse em processo de crescimento, ainda mantinha muitas características rígidas herdadas das décadas anteriores.
“Do primeiro ao quarto ano ainda era bastante rigoroso. Quando a gente aprontava, recebia castigo na escola e depois em casa também, porque os pais apoiavam os professores. Mais tarde, já no sexto ano em diante, ficou um pouco mais tranquilo e mais baseado na conversa. Mas ainda existia muita disciplina e respeito dentro da escola”, lembrou.
Eduardo acompanhou o período de expansão da estrutura escolar, que ganhou novas salas, secretaria, refeitório e passou a oferecer turmas além do quarto ano. Segundo ele, até então os alunos precisavam se deslocar para outras escolas para continuar os estudos.
Ele também recordou que a construção da quadra esportiva aconteceu justamente no período em que estudava fora da escola. Antes disso, as brincadeiras aconteciam em um pátio de areia, cuja manutenção era feita pelos próprios estudantes.
“No começo do ano não tinha zelador. Então o mato tomava conta do pátio e o diretor convocava os alunos para trazer enxada. Todo mundo ajudava a limpar. Era um mutirão mesmo. Depois também tinha a horta escolar, e os alunos buscavam esterco com uma carrocinha emprestada pelos vizinhos para preparar os canteiros. Hoje isso parece distante, mas na época fazia parte da rotina e ensinava muita responsabilidade”, relatou.
As transformações tecnológicas também ficaram marcadas na memória do ex-aluno. Ele lembrou que, durante sua época escolar, ainda não existiam internet ou celulares. Os trabalhos eram feitos manualmente, utilizando cartolina, hidrocor, recortes de revistas e máquinas de escrever.
Hoje, a ligação da família com a instituição continua. A filha de Eduardo, Laura, também estuda na Escola Almirante Barroso, dando sequência à tradição familiar.
“Eu acho muito legal ela estudar na mesma escola onde eu estudei e onde meu pai também estudou. A gente sabe que é uma boa escola e que sempre teve qualidade. Quando ela entrou ainda tinha professora que deu aula para mim. Isso mostra como existe uma história muito forte aqui dentro. É uma ligação da família com a escola que atravessa gerações”, afirmou.
Durante as comemorações dos 140 anos da instituição, os ex-alunos puderam revisitar fotografias antigas e reencontrar memórias da infância.A exposição organizada pela escola reuniu registros históricos da antiga estrutura, turmas de estudantes e momentos marcantes da trajetória da instituição.
Para os antigos alunos, a experiência despertou sentimentos de nostalgia e pertencimento. “Foi muito emocionante ver as fotos antigas. A gente reconhece colegas de aula, pessoas que muitas vezes nem sabe mais onde estão hoje. Alguns talvez nem morem mais em Pomerode. Ver tudo isso de novo traz um sentimento muito bom e mostra como a escola fez parte da vida de tantas famílias da comunidade”, concluiu Eduardo.