Especiais

Amizade, saúde mental e base forte: as conquistas e desafios de Laisa, promessa pomerodense no lançamento de dardo

Aos 16 anos, lançadora supera rotina exaustiva e se consolida na Seleção Brasileira com a melhor marca da carreira

12 de julho de 2026
Amizade, saúde mental e base forte: as conquistas e desafios de Laisa, promessa pomerodense no lançamento de dardo

Amizade, saúde mental e base forte: as conquistas e desafios de Laisa, promessa pomerodense no lançamento de dardo - Foto: Arquivo Pessoal

A trajetória de um atleta de alto rendimento raramente começa sob os holofotes. Para Laisa Backes Guedes, lançadora de dardo de 16 anos e uma das grandes promessas esportivas de Pomerode, a caminhada que a levou a vestir o uniforme do Time Brasil em competições continentais começou de forma despretensiosa. Convocada para representar o país no Campeonato Ibero-Americano de Atletismo no Paraguai e nos Jogos Sul-Americanos da Juventude, no Panamá, Laisa não entrou nas pistas por um sonho de infância isolado. O salto para o esporte, que hoje a coloca no radar internacional com um recorde de 42.56m, nasceu de um convite de sua melhor amiga em 2021.

A porta de entrada para o atletismo foi aberta por Maytê Mikaela Maçaneiro, de 16 anos, que havia ingressado na modalidade em 2019 no lançamento de pelota. Empolgada, ela convenceu Laisa e outras amigas a realizarem um teste com o técnico Chico, na Secretaria de Eventos, Esporte e Lazer de Pomerode. Nos primeiros meses, Laisa focou nas corridas de 800 metros e nas provas com barreiras. A grande virada de chave, contudo, ocorreu em 2022. Ao lançar de brincadeira um dardo durante os treinos, revelou uma técnica natural que impressionou o treinador.

Desde então, Maytê acompanha de perto cada evolução da amiga: “choro toda vez porque para mim é muito bonito ver ela assim. É como se fosse literalmente minha irmã que estivesse lá. Uma vitória dela é literalmente uma vitória minha”, afirma Maytê, ressaltando o laço que o esporte fortaleceu ao longo dos anos.

Amigas de infância, Laisa e Maytê hoje divide a pista de atletismo - Foto: Arquivo Pessoal

Amigas de infância, Laisa e Maytê hoje dividem a pista de atletismo – Foto: Arquivo Pessoal

Conquistas inéditas e viagens internacionais

O talento descoberto rapidamente se traduziu em resultados expressivos. Em 2023, Laisa garantiu uma medalha de ouro nos Jogos Escolares de Santa Catarina (JESC). No ano seguinte, já no Brasileiro Sub-16, a forte pressão pesou e ela terminou na quarta colocação. Longe de abaixar a cabeça, usou o resultado negativo como combustível. A consagração veio no Brasileiro Sub-18 de 2025: cravou a marca de 42.56m, que lhe rendeu a medalha de prata nacional, o 5º lugar no ranking ibero-americano e as passagens carimbadas para o Paraguai e o Panamá.

Ver o próprio nome na lista oficial do Comitê Olímpico Brasileiro transformou a maneira como a jovem enxerga o esporte: “eu me sinto muito grata. Eu conheço uma parte do mundo que poucas pessoas vão conhecer”, reflete a lançadora, destacando a gratidão por vivenciar a estrutura de ponta do atletismo.

Laisa representou o país nos Jogos Sul-Americanos da Juventude, no Panamá - Foto: Arquivo Pessoal

Laisa representou o país nos Jogos Sul-Americanos da Juventude, no Panamá – Foto: Arquivo Pessoal

A importância de cuidar da saúde mental

Conforme Laisa, em contraste a alegria de competir catarse das comemorações, a realidade do esporte no Vale do Itajaí exige alguns sacrifícios. Cursando o 3º ano do Ensino Médio, Laisa enfrenta uma rotina completa. Todos os dias, encara os ônibus lotados e o trânsito intenso rumo a Blumenau para os estudos, retornando no fim do dia e ainda precisando encarar a pista de treinamentos.

A fadiga física, no entanto, não é o único desafio. A atleta demonstra coragem e maturidade ao expor a sua saúde mental, revelando que a ansiedade já a fez chorar em meio às provas devido à imensa pressão de representar o país. Hoje, com acompanhamento psicológico focado no rendimento esportivo, ela trabalha para blindar a mente e garantir que o nervosismo não a afete em momentos decisivos no esporte.

Aos 16 anos, Laisa faz acompanhamento com psicólogo para manter a boa saúde mental - Foto: Arquivo Pessoal

Aos 16 anos, Laisa faz acompanhamento com psicólogo para manter a boa saúde mental – Foto: Arquivo Pessoal

Um dos pilares que sustenta essa trajetória vencedora tem nome conhecido nas pistas da cidade: o técnico Odair Luiz dos Santos, o Chico. Descrito por Laisa como um “segundo pai”, ele a acompanha desde os 11 anos de idade, cuidando não apenas da parte técnica, mas do desenvolvimento humano do grupo.

Ciente das dificuldades financeiras que cercam o esporte no Brasil, Laisa projeta o futuro com os pés no chão. Os planos envolvem a busca por uma bolsa de estudos nos Estados Unidos, onde deseja conciliar o atletismo com uma formação acadêmica, avaliando carreiras em áreas como Ciências Biológicas, Veterinária ou Design. O sonho de disputar uma Olimpíada, embora tratado com cautela, segue vivo no horizonte: “eu sei que é difícil e pode demorar, mas nunca vou deixar de tentar”, confirma.

O efeito inspiração

O impacto de Laisa transcende as medalhas e já forma a nova geração do projeto. Recentemente, a também atleta pomerodense Thuani Hardt, que em maio conquistou a primeira colocação no ranking brasileiro da modalidade nas categorias sub-16 e sub-18, declarou que uma das maiores inspirações no esporte é Laisa.

Laisa, Maytê e Thuani juntas em Campeonato Estadual - Foto: Arquivo Pessoal

Laisa, Maytê e Thuani juntas em Campeonato Estadual – Foto: Arquivo Pessoal

Questionada sobre o recado que deixa para os jovens que desejam entrar no atletismo, ela ensina a receita da resiliência: “nunca pare de treinar. Confie sempre no processo, que uma hora vai chegar. Foi mal na competição? Vai continuar, chegar na próxima e vai dar certo”.

Notícias relacionadas