O chocolate foi apenas o começo: como a Nugali ajudou a mudar a história do cacau brasileiro
Maitê Lang e Ivan Blumenschein abriram caminho para um novo mercado no Brasil, valorizando o cacau nacional, a sustentabilidade e uma cultura de qualidade que ultrapassa fronteiras
Maitê Lang e Ivan Blumenschein (Foto: Nugali Chocolates / Divulgação)
Quando se fala em Nugali, é fácil pensar nas medalhas internacionais, nos chocolates premiados ou no fluxo de visitantes que percorre a fábrica na Rota do Enxaimel. Mas, para entender a importância da empresa para Pomerode e para o Brasil, talvez seja preciso voltar a um tempo em que ela sequer existia.
No começo dos anos 2000, um casal de engenheiros trabalhava na indústria aeronáutica, em São Paulo. Ela, pomerodense, carregava um sonho antigo: voltar para casa e ter um negócio próprio. Ele, inicialmente, resistiu.
“A Nugali nasceu de um sonho da Maitê. Eu seria injusto se não falasse isso”, afirma Ivan Blumenschein, sócio e diretor de produção da empresa. “Eu até tentei convencê-la a não vir para Pomerode. Tínhamos uma carreira consolidada. Mas quando conheci a cidade, me apaixonei também.”
O que parecia uma mudança de vida se transformaria, anos depois, em um movimento capaz de alterar a percepção mundial sobre o chocolate brasileiro.

Foto: Nugali Chocolates / Divulgação
Uma pergunta simples mudou tudo
A ideia da Nugali não surgiu porque seus fundadores dominavam a arte da chocolataria. Pelo contrário. A relação deles com o chocolate era a mesma de milhares de brasileiros: a de consumidores.
Mas havia algo que intrigava Maitê. Em viagens ao exterior, era comum que amigos e familiares pedissem chocolates suíços e belgas na mala. Ela começou a se perguntar por quê.
“Ela falou: por que tanta gente pede chocolate de fora? O que está acontecendo para as pessoas não estarem satisfeitas com aquilo que encontram aqui?”, relembra Ivan.
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Ao investigar o mercado brasileiro, o casal percebeu um fenômeno que passava despercebido para muitos consumidores: os chocolates haviam mudado.
“A gente percebeu que muitos produtos tinham substituído ingredientes nobres por versões mais baratas. A manteiga de cacau deu lugar a gorduras hidrogenadas, a baunilha virou aromatizante artificial. Eram os mesmos nomes da infância, mas não eram mais os mesmos produtos.”
Ao mesmo tempo, outro movimento ganhava força em diversos países: chocolates com maior teor de cacau, rastreabilidade da matéria-prima e fabricação controlada desde a escolha dos grãos. Era o chamado bean to bar.
“No Brasil, ninguém fazia isso”, resume Ivan. E foi justamente aí que eles enxergaram uma oportunidade.

Foto: Nugali Chocolates / Divulgação
Desbravando um caminho que não existia
Mas não bastava abrir uma fábrica. Era preciso construir praticamente um novo segmento. “Fomos procurar produtores que também quisessem fazer um cacau de qualidade superior. Foi um trabalho de desbravar um setor que ainda não existia.”
Os resultados vieram cedo. Em 2004, a Nugali lançou o primeiro chocolate com 70% de cacau produzido no Brasil. Em seguida, vieram o primeiro bean to bar brasileiro, o primeiro chocolate de origem única nacional e o primeiro chocolate com 80% de cacau.
Anos depois, a empresa se tornou a primeira marca brasileira a conquistar medalhas na principal competição mundial do setor, a International Chocolate Awards. Hoje, soma mais de 50 premiações internacionais.
Mas Ivan prefere destacar outro legado. “A maior satisfação talvez seja saber que ajudamos a mudar a percepção do cacau brasileiro e do chocolate brasileiro.”

Foto: Nugali Chocolates / Divulgação
Um cacau que preserva florestas
Essa transformação, segundo ele, vai além do sabor. Ao incentivar o cacau fino e remunerar melhor os produtores, a empresa passou a estimular uma cadeia produtiva mais sustentável.
“O cacau gourmet pode valer o dobro do cacau commodity. Isso permite que o agricultor receba mais e preserve áreas de floresta.”
Ivan explica que grande parte do cacau de qualidade é cultivada em sistemas integrados à mata nativa. Em muitas regiões, a alternativa econômica seria a pecuária extensiva, que exige desmatamento. “É uma cadeia boa para todo mundo: para o consumidor, para o produtor, para a economia e para o meio ambiente.”

(Foto: Nugali Chocolates / Divulgação)
Sustentabilidade antes mesmo da palavra virar tendência
Muito antes das siglas ESG se popularizarem, a preocupação com sustentabilidade já fazia parte da cultura da empresa. “Nunca usamos aromatizantes, corantes ou conservantes artificiais. Sempre tivemos a preocupação de fazer algo que pudesse continuar existindo daqui a dez anos.”
Esse pensamento levou a Nugali a investir em energia fotovoltaica, certificação carbono neutro, logística reversa e no selo Lixo Zero, que garante que 99,8% dos resíduos da empresa não tenham como destino aterros ou incineração.
Mas talvez a inovação mais emblemática esteja na embalagem. Durante dois anos, a empresa trabalhou com fornecedores e pesquisadores para substituir o plástico metalizado tradicional — de difícil reciclagem — por um material biodegradável.
“Foram inúmeros testes até encontrar uma combinação de biopolímeros e papel que garantisse a mesma proteção ao chocolate.”
O resultado é uma embalagem capaz de se decompor completamente em cerca de dois anos, sem gerar microplásticos. A inovação rendeu à Nugali o Prêmio Nacional de Inovação da Confederação Nacional da Indústria (CNI), um dos mais importantes do país.

Foto: Nugali Chocolates / Divulgação
Uma cultura que não se ensina em treinamentos
Hoje, a Nugali reúne cerca de 60 colaboradores entre fábrica e lojas. Mas Ivan acredita que o maior diferencial da equipe não está em manuais ou treinamentos formais.
“A qualidade do que a gente faz e a forma como a gente faz não são negociáveis.”
Ele cita como exemplo a recente alta mundial do preço do cacau. “Muitas empresas alteraram suas fórmulas para reduzir custos. Aqui isso nunca entrou em discussão.”

Foto: Humberto Furtado / Nugali Chocolates
O orgulho de representar Pomerode
Ao olhar para trás, Ivan evita dizer que a empresa chegou ao topo. “Nenhum jogo está ganho. Confiança e reputação são coisas que se conquistam lentamente e podem ser perdidas rapidamente.”
Ainda assim, ele reconhece o orgulho pela trajetória construída. E esse orgulho tem endereço. “Quem vem de fora percebe isso muito claramente: Pomerode é uma cidade especial.”
Ele se impressiona com a quantidade de marcas reconhecidas nacional e internacionalmente que nasceram em um município com pouco mais de 35 mil habitantes. “Tem queijo, cerveja, linguiça, chocolate, cristal, porcelana… É desproporcional.”
Para Ivan, fazer parte dessa história talvez seja uma das maiores conquistas da Nugali.
“Temos orgulho de ser uma marca que ajuda a reforçar essa percepção: a de que Pomerode é um lugar que faz as coisas com qualidade e com capricho.”
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