Estudo alerta: mexilhões podem ser porta de entrada de microplásticos no organismo humano
Pesquisa da Unirio revela que moluscos consumidos na alimentação não conseguem diferenciar microplásticos de alimentos naturais, aumentando o risco de contaminação na cadeia alimentar
Foto: Pixabay
Os mexilhões, amplamente consumidos na culinária brasileira, podem representar uma importante via de entrada de microplásticos no organismo humano. O alerta é resultado de um estudo da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio), publicado nesta segunda-feira, dia 15 de junho, na revista científica Ocean and Coastal Research.
A pesquisa investigou o comportamento alimentar do mexilhão marrom (Perna perna), espécie encontrada em grande parte do litoral brasileiro e bastante utilizada na gastronomia. Os resultados mostram que esses moluscos não conseguem distinguir microplásticos de microalgas, seu alimento natural, ingerindo ambos de forma indiscriminada.
O estudo foi divulgado em parceria com a Agência Bori e publicado pela Ocean and Coastal Research, periódico científico brasileiro editado pelo Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (USP).
Pesquisa foi realizada com mexilhões coletados no Rio de Janeiro
Para realizar o experimento, pesquisadores coletaram exemplares da espécie na Praia Vermelha, na zona sul do Rio de Janeiro. Os mexilhões foram levados para laboratório, onde foram submetidos a condições ambientais controladas.
Os animais foram divididos em três grupos e expostos a diferentes soluções: uma contendo apenas microalgas, outra contendo apenas microplásticos e uma terceira com a mistura dos dois elementos.
Após uma hora de observação, os pesquisadores analisaram a água dos aquários e constataram que os mexilhões consumiram os materiais sem qualquer distinção.
Segundo a bióloga marinha e professora da Unirio, Raquel de Almeida Ferrando Neves, uma das autoras do estudo, os resultados demonstram que a espécie não possui mecanismos para diferenciar partículas naturais das artificiais.
“A gente conseguiu identificar que eles não têm percepção, não conseguem diferenciar partículas naturais e partículas de plástico”, explicou.
No tanque com a mistura dos dois materiais, cerca de 48% das microalgas e 52% das partículas plásticas permaneceram na água após o período de observação, índices considerados muito próximos pelos pesquisadores e que reforçam a ausência de seletividade alimentar.
O que são os microplásticos?
Os microplásticos são pequenas partículas resultantes da degradação de objetos plásticos maiores, como embalagens, garrafas, pneus, tecidos sintéticos e revestimentos com tinta. Com o passar do tempo, a ação do sol e das condições ambientais fragmenta esses materiais, espalhando micropartículas pela água, pelo solo e pelo ar.
A preocupação com a presença desses resíduos tem aumentado em todo o mundo. Estudos recentes já identificaram microplásticos em placentas e cordões umbilicais humanos.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) reconhece os impactos da poluição por microplásticos e defende o aprofundamento das pesquisas para compreender os efeitos dessas partículas sobre a saúde humana.
Contaminantes podem representar riscos à saúde
De acordo com Raquel Neves, os microplásticos podem atuar como transportadores de diversos contaminantes químicos presentes no ambiente.
“Isso, para a saúde humana, é sempre muito arriscado e perigoso, porque esses mexilhões são filtradores, e organismos filtradores acumulam contaminantes químicos”, afirma.
A pesquisadora destaca que o risco de exposição varia conforme a frequência de consumo. Pessoas que consomem mexilhões regularmente tendem a estar mais expostas aos contaminantes associados às partículas plásticas.

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Outro ponto importante é que o preparo dos alimentos não elimina esse tipo de contaminação. Diferentemente de bactérias, vírus e parasitas, substâncias como microplásticos, metais pesados e biotoxinas permanecem presentes mesmo após o cozimento.
Comportamento deve se repetir em outras regiões
Embora os exemplares analisados tenham sido coletados em uma área específica do Rio de Janeiro, os pesquisadores acreditam que o comportamento observado se repete em outras regiões do litoral brasileiro.
Segundo a professora, o padrão alimentar da espécie costuma ser semelhante independentemente da localidade, variando principalmente conforme a disponibilidade de alimento e a presença de partículas plásticas no ambiente.
Pesquisadores defendem medidas para reduzir a poluição
Diante dos resultados, a equipe da Unirio defende a adoção de políticas públicas voltadas à redução da poluição marinha, especialmente do descarte de resíduos plásticos nos oceanos.
Entre as medidas apontadas estão a restrição do uso de plásticos descartáveis e o monitoramento constante das áreas de maricultura, onde são cultivados organismos marinhos destinados ao consumo humano.
Para os pesquisadores, essas ações são fundamentais para proteger os ecossistemas costeiros, reduzir os riscos de contaminação ao longo da cadeia alimentar e garantir a sustentabilidade da produção e do consumo de frutos do mar no futuro.
Fonte: Agência Brasil