Polícia

Professor de Libras e companheiro são presos por suspeita de abusos contra alunos surdos em Jaraguá do Sul

Investigação aponta possível padrão de crimes ao longo de anos; ao menos cinco vítimas já foram identificadas

1 de maio de 2026

Foto: Divulgação / Polícia Civil

Um professor de Libras, de 44 anos, e o companheiro dele de 42, foram presos preventivamente pela Polícia Civil de Santa Catarina, suspeitos de abusar sexualmente de pessoas surdas em Jaraguá do Sul. Ambos aguardam audiência de custódia, prevista para a tarde desta sexta-feira, dia 1° de maio, quando a Justiça decidirá se as prisões serão mantidas.

As detenções ocorreram na noite de quinta-feira, dia 30 de abril, no bairro Czerniewicz. Após a prisão, os dois foram encaminhados ao presídio.

O caso veio à tona após uma das vítimas procurar a imprensa acompanhada de sua defesa. Até o momento, pelo menos cinco vítimas foram identificadas, todas surdas. Quatro delas já prestaram depoimento à Polícia Civil com o auxílio de intérpretes de Libras.

Segundo as investigações, os relatos indicam um possível padrão de abusos desde, pelo menos, 2008. Uma das vítimas afirmou ter sido abusada aos 12 anos, quando era aluna de uma escola municipal onde o suspeito atuava como professor. De acordo com o depoimento, os crimes teriam ocorrido no banheiro da instituição, em mais de uma ocasião.

Outra vítima relatou abusos durante um retiro da pastoral de surdos, quando tinha 15 anos. Conforme o relato, o supeito a levou até um quarto e praticou atos libidinosos. Posteriormente, ao reencontrar o casal, o companheiro teria dito que tinha conhecimento do ocorrido e demonstrado interesse em presenciar novos episódios.

Há ainda denúncias de um caso ocorrido em julho de 2014, durante um deslocamento de carro até o Aeroporto de Navegantes. A vítima afirma que foi assediada e constrangida a atos sexuais durante o trajeto e que os episódios teriam se repetido em eventos da associação até o ano passado.

Outros relatos apontam abusos em 2016, durante um evento pastoral em Caçador. Segundo as vítimas, o professor teria isolado pessoas em salas e banheiros para cometer os crimes, enquanto o companheiro é acusado de assediar participantes no alojamento, inclusive durante o sono.

Investigação

De acordo com o delegado Augusto Brandão, da Delegacia da Mulher e da Criança e Adolescente de Jaraguá do Sul, a investigação teve início após requisição do Ministério Público.

Segundo ele, o avanço das apurações exigiu cautela, principalmente pelo medo das vítimas em denunciar.

“As vítimas tinham verdadeiro temor de falar, porque os investigados utilizavam intimidação e chantagens emocionais para impedir que os fatos chegassem às autoridades”, afirmou.

Até o momento, cinco vítimas foram identificadas. Quatro delas foram ouvidas pela Polícia Civil, enquanto uma recusou comparecer à delegacia. Conforme o delegado, os abusos teriam começado há pelo menos nove anos.

Ainda conforme o delegado, os abusos teriam ocorrido em diferentes locais e eram acompanhados de ameaças e tentativas de silenciamento. Em alguns casos, um dos investigados também teria oferecido dinheiro às vítimas.

Durante a coleta de depoimentos, um dos suspeitos chegou a fazer uma chamada de vídeo para uma das vítimas, na qual pediu desculpas e reconheceu que suas atitudes eram erradas.

“Quando a gente estava tomando depoimento de uma dessas vítimas, ainda na delegacia, um dos investigados fez uma ligação por vídeo e meio que confessou, pediu desculpa, falou que era errado o que ele estava fazendo, demonstrando que tinha ciência do que estava fazendo, que era errado”, relatou o delegado.

A investigação também apontou que algumas vítimas apresentavam maior vulnerabilidade, inclusive por dificuldades de comunicação. Segundo a Polícia Civil, elas procuravam a associação para aprender Libras e receber orientação.

“Algumas dessas vítimas apresentavam uma certa ingenuidade, talvez pelo fato de não saberem comunicar, e são vítimas que procuraram a associação para aprender Libras, ou seja, para serem instruídas. E esses investigados abusaram dessa confiança que foi depositada para a prática desses abusos”, afirmou Brandão.

A Polícia Civil reforça que novas vítimas ou pessoas que tenham conhecimento de casos semelhantes devem procurar a Delegacia da Mulher em Jaraguá do Sul.

“É muito importante, caso alguém tenha conhecimento, seu filho, um parente, uma pessoa próxima tenha sido vítima, tenha ocorrido essa situação, que procure a Delegacia da Mulher aqui em Jaraguá do Sul”, orientou o delegado.

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