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Entre cascos, memórias e tradição: a história da Família Just e o legado construído com os cavalos

Mais do que companheiros de trabalho ou presença marcante nos desfiles da Festa Pomerana, os cavalos representam um elo vivo entre passado, presente e futuro

28 de março de 2026

Foto: Leonardo Reginato

O som ritmado dos cascos sobre a terra, as madrugadas frias na roça e o cuidado silencioso no trato diário com os animais formam a trilha sonora de uma história que atravessa gerações na família Just. Mais do que companheiros de trabalho ou presença marcante nos desfiles da Festa Pomerana, os cavalos representam um elo vivo entre passado, presente e futuro, sustentado por valores que resistem ao tempo: respeito, dedicação e amor pela tradição.

A origem dessa ligação remonta ao bisavô de Guilherme Just, quando os cavalos eram parte indispensável da lida no campo. Naquele período, o trabalho na agricultura dependia diretamente da força e da parceria dos animais, que garantiam o sustento e a sobrevivência das famílias. Foi, porém, o avô paterno, Ivo Just, hoje com 78 anos, quem transformou a necessidade em identidade familiar.

“A história da família Just com os cavalos começou com meu bisavô, que já utilizava os cavalos como parte essencial do trabalho na agricultura. Eles não eram apenas animais de serviço, mas companheiros inseparáveis da lida no campo. Quem transformou isso em tradição foi meu avô paterno, Sr. Ivo, hoje com 78 anos. Ainda muito jovem, ele assumiu essa responsabilidade e manteve viva essa ligação com os cavalos. Foi ele quem consolidou essa paixão como parte da identidade da nossa família, em uma época em que o cavalo era força, sustento e parceiro fiel no dia a dia rural”, relembra Guilherme.

Se no início o vínculo nasceu da necessidade, com o passar dos anos ele se transformou em sentimento. O trabalho pesado na roça deu lugar a uma convivência marcada por afeto e respeito, criando um legado que ultrapassa o tempo.

“No começo foi necessidade. O cavalo era fundamental para o trabalho na roça, para cuidar da terra e garantir o sustento da família. Mas, com o tempo, aquilo que começou como obrigação se transformou em amor. A convivência diária criou um laço profundo de respeito e carinho. O trabalho virou paixão, e a paixão virou legado.”

As lembranças desse período permanecem vivas nas histórias contadas entre gerações. São memórias que carregam o cheiro da terra molhada, o frio das manhãs e o esforço coletivo de uma família unida em torno de um mesmo propósito.

Foto: Leonardo Reginato

 

“As memórias mais marcantes são feitas de simplicidade e união. Os primeiros cuidados com os animais, as manhãs cedo na roça, o som dos cascos na terra e o esforço compartilhado pela família. Mais do que trabalho duro, ficou o exemplo de respeito pelos animais e de dedicação àquilo que se faz com o coração. São memórias que carregam orgulho, gratidão e muita história.”

Foi nesse cenário que Guilherme cresceu. Ainda criança, aos quatro anos de idade, já acompanhava o avô nos cuidados com os cavalos e nos desfiles, absorvendo, sem perceber, os ensinamentos que moldariam sua identidade.

“Desde muito pequeno, por volta dos 4 anos de idade, eu já acompanhava meu Opa nos cuidados com os cavalos e nos desfiles. Cresci no meio deles, aprendendo, observando e admirando. Com o passar dos anos, percebi que aquilo não era apenas uma lembrança bonita da infância, era parte de quem eu sou. Entendi que dar continuidade a essa tradição era uma forma de honrar tudo o que meu Opa construiu e manter viva a história da nossa família”, declara.

O aprendizado veio pelas mãos do avô, que transmitiu não apenas técnicas, mas valores que hoje orientam o cotidiano da família.

“Foi meu Opa quem me ensinou tudo. Desde como alimentar, encilhar e cuidar corretamente dos cavalos, até como participar das cavalgadas com responsabilidade e respeito. Mas, mais do que ensinar técnicas, ele me ensinou valores: paciência, dedicação e amor pelos animais.”

Atualmente, a família mantém sete cavalos, que exigem cuidados diários e um compromisso que vai muito além dos momentos de festa. Alimentação, limpeza, acompanhamento veterinário e atenção constante fazem parte de uma rotina marcada pela responsabilidade.

“A rotina é diária e exige dedicação constante: alimentação, limpeza, cuidados com os cascos, exames, vacinas e atenção permanente à saúde e ao bem-estar de cada um. É um compromisso que não acontece só em época de desfile, é o ano inteiro. Porque cuidar deles é, acima de tudo, um ato de amor.”

Entre as raças que marcaram essa trajetória, uma ocupa lugar especial na memória da família: o Percheron, escolhido preferido do avô e símbolo de força e imponência.

“A raça favorita do meu Opa sempre foi o Percheron. Esses cavalos marcaram profundamente a nossa história, não apenas pela força e imponência, mas pelas memórias que construímos ao lado deles. Cada um carrega histórias que até hoje são lembradas com emoção pela família.”

Presença constante nos desfiles da Festa Pomerana desde as primeiras edições, a participação da família Just é, antes de tudo, uma continuidade de sua própria história. O que o público vê na avenida é apenas o resultado de meses – e até anos – de dedicação.

“O público vê o desfile, mas não vê o ano inteiro de dedicação. Não vê as madrugadas, os cuidados constantes, a organização dos equipamentos, o transporte e os preparativos que antecedem o evento. Existe muito esforço silencioso por trás de cada volta na rua.”

Para Guilherme, carregar esse legado significa manter viva uma forma de viver que traduz a essência de Pomerode e de seus antepassados.

“Carregar esse legado é carregar uma história inteira nos ombros e no coração. Significa honrar o esforço das gerações que vieram antes de mim, manter vivos os ensinamentos do meu Opa e preservar um modo de vida que representa trabalho, respeito, união e tradição. Não se trata apenas de criar cavalos, mas de manter viva a identidade da nossa família.”

Mais do que uma tradição familiar, as cavalgadas e as carroças representam a memória coletiva de uma cidade construída sobre o trabalho no campo e o respeito às raízes.

“As cavalgadas e as carroças são uma forma viva de manter a cultura e as raízes de Pomerode. Elas representam o modo de vida de quem construiu a cidade, a ligação com a agricultura e o respeito pelos antepassados. Além disso, são momentos de reencontro. Nas cavalgadas encontramos amigos de outras cidades que compartilham a mesma paixão. É tradição, é história, é pertencimento. É manter viva a essência da nossa origem.”

Assim, entre arreios cuidadosamente preparados, carroças alinhadas e cavalos que carregam mais do que adornos, carregam histórias, a família Just segue escrevendo um legado onde o passado caminha lado a lado com o presente, conduzido pelo mesmo compasso que ecoa há gerações: o som firme e constante dos cascos sobre a terra.

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