Educação e resistência: reflexões sobre o papel do conhecimento na luta contra o racismo
Professor da FURB, Nelson Afonso Garcia Santos, fala sobre os avanços e desafios na busca por igualdade racial e destaca a importância da consciência negra como ferramenta de transformação social
Foto: Envato Elements
O debate sobre igualdade racial ganha cada vez mais espaço nas universidades e na sociedade, mas ainda há um longo caminho a ser percorrido. É o que avalia o professor Nelson Afonso Garcia Santos, docente do Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Regional e do Curso de Ciências Sociais da FURB, onde também atua como chefe do Departamento de Ciências Sociais e Filosofia.
Segundo ele, a consciência negra é mais do que uma reflexão pontual: é uma forma de resistência e mobilização diante de uma estrutura social que ainda reproduz desigualdades históricas. “O racismo estrutural e institucional ainda são muito fortes, e muitas pessoas negras precisam enfrentá-los diariamente. Mas, ao mesmo tempo, há um avanço na autoestima e no empoderamento de homens e mulheres negras”, afirma.
Para o professor, falar em consciência negra continua sendo essencial. “A superação do racismo exige que negros e não negros adquiram consciência de que ele não faz sentido. Assim como falamos em consciência ecológica para cuidar do meio ambiente, precisamos falar em consciência negra para desconstruir a ideia de inferioridade e valorizar a negritude.”
O papel das universidades e da pesquisa
As instituições de ensino têm papel fundamental nesse processo. Nelson destaca que a FURB possui o Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros, além do Grupo de Acolhimento e Integração para Pessoas Negras, que promove rodas de conversa e debates sobre temas raciais. A universidade também incluiu a disciplina História das Culturas Afro-brasileiras e Indígenas nos cursos de licenciatura, contribuindo para formar professores mais conscientes sobre a diversidade.
“Há universidades com cotas raciais, projetos de pesquisa, palestras e grupos de discussão. Mas ainda precisamos avançar para eliminar o racismo estrutural impregnado nas instituições de ensino”, observa.
Desafios e desigualdades
Entre os principais desafios enfrentados pela população negra no Brasil, o professor aponta a desigualdade socioeconômica e a sub-representação em espaços de poder. “A quantidade de prisões e assassinatos de jovens negros é absurda. Criminaliza-se a pobreza e, com isso, a juventude negra perde oportunidades de futuro”, lamenta.

Professor Nelson Afonso Garcia Santos. (Foto: Arquivo pessoal)
Ele explica que o racismo estrutural se manifesta de formas sutis e persistentes. “Vemos isso na baixa presença de estudantes negros em universidades particulares, na falta de pessoas negras em cargos de liderança, nas diferenças salariais e até nos hábitos e falas cotidianas. É um conjunto de práticas que privilegia alguns grupos em detrimento de outros.”
A importância da mídia e da educação
Nelson ressalta que a mídia tem papel ambíguo na construção da consciência racial. “Por um lado, ainda reproduz estereótipos e o racismo estrutural. Por outro, há setores da mídia que contribuem para o fortalecimento de uma consciência antirracista, e esses precisam ser valorizados.”
Ele acredita que a educação e a pesquisa são os caminhos mais sólidos para mudar essa realidade. “Professores e pesquisadores éticos e antirracistas ajudam a desconstruir as bases do racismo, que surgiu no período colonial e ainda influencia as estruturas do capitalismo racial.”
Referências e esperança
Ao destacar figuras históricas que merecem mais reconhecimento, o professor cita Antonieta de Barros, catarinense, filha de ex-escrava, jornalista, professora e primeira deputada negra do Brasil. “É essencial que crianças negras conheçam seus heróis e heroínas, e que a mídia catarinense dê mais visibilidade a essas trajetórias”, afirma.
Com uma visão otimista, Nelson acredita que as novas gerações serão agentes de mudança. “Tenho esperança de que os jovens de hoje construirão uma sociedade em que o racismo será coisa do passado. Eles vão achar horrível ser racista e vão amar ser iguais, mesmo com diferentes cores.”