Café especial de Rodeio une tradição italiana, sistema agroflorestal e turismo rural em Santa Catarina
Família Tambosi une tradição e inovação na produção de café especial e transforma a propriedade em destino turístico no Vale do Itajaí
Fotos: Arquivo Pessoal/Divulgação Epagri
O cultivo de café em Santa Catarina, que por décadas ficou restrito ao consumo familiar, começa a ganhar novo fôlego entre jovens agricultores. Em Rodeio, no Vale do Itajaí, o casal Gabriel e Thaís Tambosi retomou a tradição herdada de seus antepassados italianos e transformou o sítio da família em um espaço que une produção agroflorestal, sustentabilidade e turismo rural.
O Café Especial Leopoldo, lançado em 2022, simboliza essa nova fase da cafeicultura catarinense. A primeira colheita, feita em 2021, foi analisada no Instituto Federal Sul de Minas e recebeu nota acima de 80 pontos, entrando na categoria de cafés especiais. O resultado é fruto de um manejo cuidadoso e de práticas sustentáveis, que incluem o cultivo sombreado e a colheita manual seletiva dos grãos maduros.
“Nosso objetivo sempre foi produzir com qualidade e respeitando o meio ambiente”, explica Gabriel, que iniciou o plantio em 2017 com mudas trazidas do Paraná e de São Paulo. A colheita, realizada entre abril e agosto, é mais demorada devido ao clima frio da região, mas garante um produto de sabor e aroma diferenciados.
A tradição familiar remonta ao bisavô Giovanni, que já cultivava café nas montanhas de Rodeio. “Ele plantava junto com banana e palmito, sem saber que hoje esse sistema seria valorizado como agroflorestal”, conta Gabriel.
Turismo rural impulsiona produção
O turismo rural entrou na rotina da propriedade em 2024, quando um grupo de visitantes de Joinville conheceu a plantação. A experiência inspirou o casal a criar um espaço permanente de visitação, com rancho, degustações e até um pequeno museu em homenagem ao avô Leopoldo. Atualmente, o local recebe cerca de 800 visitantes por ano, que acompanham o processo do plantio à torra e degustam o café moído na hora.
Com o crescimento da demanda, a família planeja triplicar a produção até 2026, ampliando as áreas de plantio. Além do café, o sítio mantém outras culturas consolidadas, como hortaliças e frutas destinadas a cozinhas industriais e restaurantes.
Apoio técnico e incentivo à profissionalização
O trabalho da Epagri tem sido fundamental para a consolidação do projeto. A instituição acompanha o casal desde o início, orientando sobre manejo, correção do solo e acesso a linhas de crédito, como o Fundo de Desenvolvimento Rural (FDR) e o Pronaf. Ambos também participaram do curso Jovens Rurais, voltado à formação de empreendedores no campo.
“Esses programas nos ajudaram a pensar de forma mais profissional e a enxergar o turismo rural como uma oportunidade real”, afirma Thaís, que hoje recebe grupos de visitantes e organiza atividades de vivência.
Resgate da cafeicultura em Santa Catarina
O retorno da cultura cafeeira ao Estado começou em 2012, a partir de um projeto liderado pelo pesquisador Fernando Bisso, do Instituto Federal Catarinense (IFC), campus Araquari. O objetivo é desenvolver tecnologias que tornem o cultivo viável em regiões de clima frio e solo diversificado.
Segundo Bisso, o café catarinense tem características únicas devido à latitude elevada e à influência do mar. “O café de Rodeio é um exemplo de como o sistema agroflorestal consegue equilibrar o frio e o risco de geada, gerando um produto de alta qualidade”, explica.
A diversidade cultural também confere identidade à produção: nas encostas do Vale do Itajaí predomina a herança italiana; em Corupá e Blumenau, a germânica; e no litoral, a açoriana. “Cada região imprime seu próprio terroir, resultado da interação entre o ambiente e o saber fazer das famílias”, completa o pesquisador.
Novas pesquisas e perspectivas
Atualmente, a Epagri e o IFC desenvolvem projetos conjuntos para analisar riscos climáticos e o comportamento de diferentes variedades de café arábica em sistemas agroflorestais. O trabalho, conduzido com apoio da Fapesc, busca fortalecer o cultivo sustentável e agregar valor à produção local.
“O objetivo não é competir com grandes polos produtores, mas oferecer uma alternativa rentável e ambientalmente equilibrada para o agricultor catarinense”, destaca o pesquisador Fábio Zambonin, da Epagri/Ciram.
Com o apoio técnico e a crescente valorização dos cafés especiais, o cultivo em Rodeio se firma como um exemplo de como tradição, ciência e empreendedorismo podem caminhar juntos no fortalecimento do meio rural.