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Atuação fundamental para o desenvolvimento rural em Pomerode

Extensionista rural em Pomerode há 16 anos, agrônoma Eneide Barth fala sobre os desafios da profissão e como é ser uma mulher no meio rural

8 de março de 2025

Eneide em uma propriedade com plantio direto. (Foto: Arquivo pessoal)

Trabalhar na área da agricultura foi um caminho natural para a engenheira agrônoma Eneide Barth, que atua como extensionista rural na Epagri de Pomerode. A sua vocação para trabalhar na área surgiu na infância, das visitas que fazia aos avós e tios, que eram agricultores e moravam na cidade de Ituporanga.

“Eu nasci na área urbana, mas a minha mãe tem origem na agricultura. Ela é filha de agricultores, então eu me lembro que íamos para a casa dos meus avós e eu adorava aquilo. Adorava o ambiente, a casa enxaimel, os cavalos, as galinhas, o córrego. Eu me sentia em casa ali, era muito bom, apesar da rusticidade, com a casinha do banheiro fora da casa. Eu peguei o tempo em que o colchão era de palha de milho, a coberta era de pena de galinha, para lavar o rosto era na bacia esmaltada, não tinha água encanada, na cozinha o fogão era a lenha, o pão era de milho, que comíamos com nata e muss, tudo isso aí eu vivenciei na minha infância e tenho saudades”, relembra Eneide.

Da mesma forma que existem as memórias afetivas de como era a vida no campo, Eneide também percebia o quanto aquele modo de viver exigia muito esforço. Ela pensava que algumas coisas poderiam ser melhores.

Ao terminar o ensino médio, o teste vocacional revelou a aptidão para a área das ciências exatas para faculdades como arquitetura, engenharia civil e matemática.

“Só que eu cismei que eu queria ser engenheira agrônoma e me posicionei em casa que esta seria a única faculdade que eu faria, porque eu tinha aquele espírito sonhador de que eu poderia fazer alguma diferença na agricultura. Sempre amei e amo ainda a minha profissão. Eu acho que isso é uma coisa que me acompanha até hoje, não tenho nenhum arrependimento de ter escolhido a agronomia e até hoje me encanto com ela”, afirma.

Decidida a seguir a carreira, Eneide cursou a faculdade na UFSC entre 1989 a 1993. Ao se formar, iniciou sua vida profissional como agricultora, plantando morangos sem o uso de agrotóxicos, pois já existia a percepção de que a produção de alimentos deveria ser praticada de forma mais sustentável, evitando o máximo possível o uso de agrotóxicos.

“Por três anos vivenciei toda essa dinâmica de produzir, colher, classificar, embalar, entregar no supermercado, negociar preço. Esse foi o meu primeiro passo profissional”, comenta a agrônoma.

Foto: Arquivo pessoal

 

A mudança na carreira profissional veio após a participação em um curso de produção orgânica, no qual ela conheceu um profissional da Epagri, que deu a dica de uma vaga no município de Apiúna no projeto Microbacias, executado pela Epagri em parceria com as prefeituras. E dessa forma começou a sua vida profissional como funcionária.

Em 2002 surgiu a oportunidade através do concurso da Epagri, no qual se classificou na oitava posição, de trabalhar em Ascurra por dois anos. Em 2004 foi convidada a trabalhar no escritório regional, onde atuou por cinco anos. Foi quando surgiu a vaga em Pomerode e ela decidiu que estava na hora de voltar a exercer a agronomia no escritório local, onde há, de fato, contato mais próximo com os agricultores.

A respeito dos desafios no trabalho do dia a dia em Pomerode Eneide explica que, assim como em outros municípios da região, que é tão industrializada, há peculiaridades que tornam o trabalho diferente.

“O agricultor, em nossa região, divide seu tempo entre o trabalho urbano e o trabalho na propriedade. Nós temos um grande parque industrial e setor de serviços que oferecem muitos empregos. Isso afeta um pouco o trabalho de assistência técnica e extensão rural, principalmente, as atividades coletivas. Quando promovemos um curso ou reunião, há uma dificuldade de participação do agricultor, pois ele também está trabalhando nesse horário, e mesmo que promovamos isso à noite ou no final de semana, nos seus horários livres, o agricultor está trabalhando na sua propriedade, aproveitando seu tempo que também é escasso. Esta é uma característica local e regional para a qual a equipe precisa se adaptar, fazendo o trabalho mais na forma de visitas, que precisam ser agendadas previamente para que o agricultor possa nos atender”.

Ainda a respeito da rotina no trabalho, a agrônoma tem uma relação mais próxima com alguns dos agricultores do município que desejam experimentar propostas de trabalho que a Epagri sugere, por meio das chamas unidades de referência técnica ou unidades de observação.

Parte do trabalho de plantio direto de milho em Pomerode. As raízes do milho na esquerda são mais longas, é do milho no sistema de plantio direto. (Foto: Arquivo pessoal)

 

Nestes casos, o agricultor disponibiliza uma pequena área, onde serão desenvolvidas as boas práticas agropecuárias, como a análise de solo, correção com o calcário, adubação balanceada, cobertura do solo com adubos verdes, e diversas técnicas que aumentam o nível de matéria orgânica e porosidade do solo, melhorando a produção e reduzindo os custos.

“Buscamos atuar de forma mais próxima com os agricultores abertos a mudanças, demonstrando na prática os benefícios da adoção de boas práticas. A principal cultura aqui é o milho, os agricultores fazem safra e safrinha, isso exige muito do solo e causa compactação trazendo prejuízos aos produtores”, comenta Eneide.

Percebendo a falta de máquinas e implementos adaptados às necessidades das pequenas propriedades, assim como a dificuldade de acesso às tecnologias mais sustentáveis, entre os anos de 2012 e 2016, a Epagri de Pomerode realizou 3 edições da Mostra de Tecnologias para a Agricultura de Pequena Escala, uma feira chamada Agrotec, sendo duas em Pomerode e uma em Itajaí. “Essa atividade foi bastante trabalhosa, mas nos deu muito orgulho de fazer. Contamos também com apoio de outros colegas, no entanto, tive a sorte de ter a Roberta Ramos, extensionista social, como colega de escritório nesse período. Trabalhávamos muito unidas”.

Os desafios enquanto mulher

A agrônoma afirma que sempre foi bem tratada em Pomerode. “O agricultor pomerodense é muito respeitoso. O desafio encontrado no trabalho está mais relacionado a uma certa resistência em mudar as práticas. As vezes ouvimos que: ‘Eu sempre fiz assim, meus pais faziam assim, meus avós faziam assim”. Nós sabemos que o processo de mudança exige disponibilidade de tempo e um trabalho a mais na transição, o que muitas vezes o agricultor, mesmo tendo vontade de mudar, não tem o tempo para fazer. Então ele acaba repetindo sempre o mesmo jeito de fazer as coisas, porque é o tempo que ele tem para fazer”, comenta.

A agrônoma admite que, ao longo da carreira já viveu situações de machismo, mas em Pomerode os agricultores já a conhecem e respeitam.

Outro ponto que traz desafios, na visão de Eneide é o fato de ter trabalhado por um longo período sozinha, acumulando muitas tarefas. No entanto, hoje também trabalha no escritório da Epagri em Pomerode a Extensionista Social Geisebel Cristiane Patrício, colega com formação em assistência social e que atua na área de agregação de valor, preparo de alimentos, desenvolvimento de novos produtos aproveitando o que é produzido na propriedade, turismo rural etc. Por exemplo, em uma propriedade que produz café, eu atuo na parte produtiva enquanto a Geisebel trabalha com o que poderá ser feito com este café. “Trabalhar em equipe é muito mais produtivo e motivador. Estamos felizes por trabalharmos juntas em Pomerode”, destaca Eneide.

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