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65 anos de amor, trabalho e compreensão

Casal celebrou bodas de Platina em uma festa com a família

7 de março de 2026

Foto: Isadora Brehmer / JP

Em uma época em que os bailes eram o principal ponto de encontro da juventude do interior, foi ao som da música e entre passos tímidos na pista que começou a história de Wendelin Siewert e Rovena Krahn.

Na simplicidade daquele tempo, surgiu o romance, profundo o suficiente para atravessar décadas, dificuldades, mudanças e gerações inteiras de uma família que hoje se orgulha de suas raízes. No dia 10 de dezembro de 2025, o casal celebrou 65 anos de casamento, uma marca rara, construída dia após dia com trabalho, união e, sobretudo, perdão.

Casados em 10 de dezembro de 1960, Wendelin e Rovena oficializaram a união em Pomerode, na Igreja de Testo Alto, com a festa realizada no tradicional Salão Belz (atualmente o Clube Alto Rio do Testo). Era ali, entre bancos de madeira, vestidos cuidadosamente preparados e a presença da comunidade, que começava uma vida a dois que atravessaria profundas transformações sociais, econômicas e familiares.

Segundo o Rogério Siewert, um dos cinco filhos do casal e conhecido pelo trabalho à frente da Casa Siewert, a história dos pais segue um roteiro comum a muitas famílias da região, mas com capítulos que revelam coragem e resiliência. “Eles se conheceram nos bailes. Antigamente, todo mundo ia ao baile. O namoro durou seis anos, tempo suficiente para consolidar um sentimento que amadureceu antes mesmo do casamento”, conta. Quando decidiram se unir, Wendelin tinha 25 anos e Rovena, 23.

Logo após o casamento, os dois passaram um breve período afastados, mas logo começaram a vida juntos. Em janeiro de 1961, Rovena mudou-se definitivamente para a localidade onde o casal passou a viver. A adaptação, no entanto, não foi simples. Vinda de uma região que já contava com energia elétrica, ela encontrou um cenário bem diferente no novo lar. “Para minha mãe foi um choque. Onde ela morava, mais ao sul de onde hoje é Pomerode, já tinha energia elétrica, e vindo pra cá, em cima ainda não tinha.” Um detalhe que simboliza as mudanças e desafios enfrentados logo no início da vida conjugal.

Casal com os cinco filhos. (Foto: Isadora Brehmer / JP)

 

Em setembro de 1961 nasceu a primeira filha do casal, Leonilda. Depois vieram Alcino, Adir, Rosali e Rogério, formando uma família de cinco filhos, criada em meio à lida no campo, à agricultura e às incertezas típicas da vida rural. Os primeiros anos foram especialmente difíceis. A renda vinha quase exclusivamente da agricultura: da venda do leite, do milho, dos poucos animais criados na propriedade.

As adversidades não tardaram a aparecer. Chuvas, enchentes e ventos fortes comprometeram as safras. Naquele tempo, o milho era o chamado “milho comum”, mais suscetível às intempéries. “Eles colheram pouquíssimo milho. E a matemática da vida no campo era implacável: menos milho significava menos leite, menos vacas, menos porcos e, consequentemente, menos renda. Os primeiros dois anos foram bem difíceis”, resume.

Com o tempo, as condições melhoraram um pouco. A produção aumentou, a família seguiu em frente e a agricultura sustentou o lar por décadas. No entanto, a partir do fim dos anos 1980, o cenário mudou novamente. A atividade agrícola já não garantia a sobrevivência da família. Era preciso reinventar-se. Wendelin encontrou trabalho como servente de pedreiro em 1989, função que exerceu por 11 anos em uma empreiteira.

Foi mais uma mudança significativa na trajetória do casal, marcada pela disposição de recomeçar sempre que necessário.

Enquanto isso, Rovena também cogitou trabalhar fora de casa. “Minha mãe chegou a tentar uma vaga na Malwee, uma das maiores indústrias têxteis da região, mas acabou não sendo chamada. Ainda assim, ela seguiu sendo um dos pilares da família, sustentando o lar com dedicação silenciosa e presença constante”, destaca Rogério.

Hoje, Wendelin tem 90 anos e Rovena, 88. O casal soma nove netos e dois bisnetos, números que contrastam com a geração anterior, o pai de Wendelin teve 12 filhos, e refletem as transformações das famílias ao longo do tempo. Mais do que os números, porém, impressiona a possibilidade de reunir gerações para celebrar uma história que atravessou 65 anos.

“Poucos chegam a 50, 60, 65 anos de casamento. Para nós, cada nova celebração é motivo de alegria e gratidão. Nos últimos anos, como é natural com o avançar da idade, surgiram problemas de saúde e limitações físicas. Ainda assim, a união construída ao longo da vida reflete agora na relação entre nós, filhos, que nos organizam para cuidar dos nossos pais. Todos os irmãos ajudam, somos unidos para estarmos junto deles como merecem”, enfatiza.

Ao olhar para trás, Rogério resume o que considera ser o segredo de um casamento tão duradouro. “Não há fórmulas mágicas, mas valores simples, colocados em prática diariamente. É perdoar um ao outro, ajudar um ao outro, trabalhar juntos. O perdão, a união, a confiança um no outro e depender um do outro.”

A história de Wendelin Siewert e Rovena Krahn é, ao mesmo tempo, singular e coletiva. Singular porque carrega as marcas únicas de um casal que resistiu ao tempo. Coletiva porque espelha a trajetória de tantas famílias pomerodenses, moldadas pelo trabalho árduo, pela fé, pela vida comunitária e pelo amor construído nos gestos pequenos do cotidiano.

Em um mundo cada vez mais acelerado, celebrar 65 anos de casamento é mais do que recordar o passado: é reafirmar valores que seguem vivos e necessários. É lembrar que o amor, quando cultivado com paciência, respeito e perdão, pode atravessar gerações — e continuar sendo exemplo.

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